domingo, 10 de janeiro de 2010

Reações Psicológicas ao Esperanto

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Não é novidade que grande parte dos esperantistas já sofreram algum tipo de censura, rejeição, reprovação, ridicularização ou preconceito. Claro que na maioria das vezes talvez isso não ocorra em um grau tão sério (absolutamente nada comparado às ações de ditaduras que perseguiam e matavam esperantistas, chegando a dizimar a família de Zamenhof). Contudo, não é assim tão raro se deparar com pessoas que apresentam reações explosivas quando o assunto é Esperanto, ou simplesmente pessoas que, a respeito da língua, fazem questão de expor sua ignorância ostentando-a como verdade. Tenho conhecimento da existência do Esperanto já há vários anos, e nesse tempo me deparei com os mais diversos ataques contra a língua, geralmente por pessoas que, percebe-se, pouco dela ouviram falar. Por que isso acontece?

Motivado por esse questionamento, encontrei um artigo bastante esclarecedor do linguista e psicólogo Claude Piron. E não encontrando uma versão em português disponível na internet, empenhei-me em traduzi-lo a fim de facilitar a divulgação e quem sabe contribuir para a diminuição desse problema.

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Por Claude Piron

-linguista, psicólogo, tradutor da ONU e da Organização Mundial da Saúde-

1. Reações divergentes

Para um psicólogo investigando as reações à palavra "Esperanto", dois fatos são imediatamente observáveis:

1)      o grande número de pessoas convidadas a dar sua opinião têm muito a dizer sobre o assunto;

2)      elas tomam tais afirmações por auto-evidentes, e em muitos casos citam espontaneamente várias declarações que são contrárias à realidade verificável, por exemplo: "ninguém jamais escreveu um romance diretamente em Esperanto", "O Esperanto é uma língua que ninguém fala", "não há crianças que o tenham como língua materna", etc.

Um bom exemplo dessas convicções se encontra em uma carta de um leitor da revista americana Time:

O Esperanto não tem uma história cultural, nenhuma literatura genuína e nenhum monolíngue ou mesmo falantes que o tenham como primeira língua. (Wells, 1987).

Além disso, muitas das pessoas questionadas demonstram todas as indicações de reação emocional. Alguns reagem com entusiasmo, com fervor. Mas a maioria olha para o Esperanto com presunção, como se fosse algo obviamente infantil. A pessoa em questão demonstra que o Esperanto não é para ser levado a sério, e seu tom é arrogante, irônico ou sarcasticamente condescendente para com os “ingênuos” que apoiam a ideia.

Se, a fim de se obter uma reação de referência para comparação, o pesquisador pede ao sujeito para, da mesma forma, dar sua opinião sobre o Búlgaro ou Indonésio, obtém-se uma resposta completamente diferente. O sujeito leva cerca de um minuto para contar em um tom de voz perfeitamente neutro tudo o que ele tem a dizer sobre essas línguas, geralmente que não sabe nada.

O contraste é surpreendente. E revela-se ainda mais surpreendente quando se testa seu conhecimento por meio de questões precisas sobre literatura, distribuição geográfica, possibilidades expressivas, etc. De imediato torna-se evidente que as impressões do sujeito sobre o Esperanto são quase totalmente equivocadas, muito mais do que os fragmentos de conhecimento que ele consegue lembrar sobre as línguas de referência. Por que ele está ciente de sua incompetência em um caso mas não no outro?

Presumivelmente, línguas como o Búlgaro e o Indonésio são vistas como pertencentes ao mundo dos fatos, enquanto que o Esperanto é sentido como uma proposta. Fatos são incontestáveis. Diante de uma proposta, sente-se a necessidade de aprovar ou reprovar e então defender seu ponto de vista. Mas por que o Esperanto não é visto como pertencente à esfera dos fatos? E por que é que a reação, tão frequentemente, mostra-se tão emocional? O envolvimento da escala emocional não é restrito a conversas individuais, como testemunha a citação seguinte, retirada de um artigo sobre o ensino do Latim, um artigo que, não fosse isso, seria expresso em um tom neutro e informativo:

Glória então ao Latim, e abaixo o Esperanto, essa mistura podre de artificialidade e de esperanças ilusórias!! (G.P., 1985).

Essa frase, sem relação com o restante do texto, parece ser uma explosão emocional imprevisível irrompendo sabe-se lá de qual profundeza. Por quê?

2. Os mecanismos de defesa

Sob análise, as declarações sobre o Esperanto ou sobre o campo mais vasto da comunicação internacional, declarações que podem ser facilmente obtidas ao pedir as pessoas para falarem livremente sobre o assunto, ou declarações que são apresentadas nas reuniões oficiais dedicadas a essa questão, caracterizam-se pela ação dos chamados "mecanismos de defesa". Esse é o nome dado às táticas inconscientemente organizadas para evitar enfrentar uma realidade supostamente ameaçadora (Freud, Anna, 1937). Eis alguns exemplos:

a) Negação.
Esperanto é tratado como inexistente em contextos nos quais seria lógico tomá-lo em consideração. Por exemplo, o volume Le Langage na série enciclopédica La Pléiade (Martinet, 1968) que, em 1525 páginas tratando desde gírias e pidgin a tradução e afasia, não contém qualquer menção, nem mesmo um único parágrafo, deste fenômeno surpreendente: uma língua conhecida somente por uma pessoa há cem anos está em uso hoje em mais de cem países. Do mesmo modo, a experiência acumulada do Esperanto como língua de conferência é considerável; em 1986 não houve um único dia em que não ocorreu, em algum lugar no mundo, um congresso, uma reunião ou uma conferência internacional, na qual a língua de mediação foi o Esperanto (uma lista apareceu no Heroldo de Esperanto de 20 de março de 1986). Quando a ONU, por exemplo, está fazendo uma análise detalhada dos problemas encontrados na comunicação linguística, seria razoável considerar essa experiência, mesmo que apenas para rejeitá-la, após análise, com base em razões explícitas. Mas não é isso o que acontece. (King et al, 1977; Allen et al, 1980; Piron, 1980).

Mesmo um linguista considerando precisamente o tipo de comunicação realizada todos os dias através do Esperanto aborda a questão como se essa experiência nunca tivesse acontecido:

Enquanto os economistas estão tentando criar um Eurodólar, por que não deveríamos tentar criar também uma Eurolíngua? (Lord, 1974, p. 40).

A primeira reação de um empresário quando enfrenta um problema de produção é considerar todas as soluções implementadas noutros lugares, a fim de descobrir, antes de procurar uma nova saída, se não há em algum lugar um sistema que lhe convenha. Essa maneira de fazer as coisas, tão natural na vida cotidiana, praticamente nunca é adotada quando o assunto é a comunicação internacional. Nesse contexto, estamos de fato diante de uma negação da realidade, no sentido psicológico.

b) Projeção.
Da-se o nome de projeção ao fato de se atribuir a alguém elementos psíquicos que encontramos em nós mesmos, mas dos quais não estamos cientes. Um bom exemplo é fornecido pela frase:

Os esforços para desenvolver linguagens universais que possam ser adotadas sem prejuízos e aprendidas sem problemas - línguas como o Esperanto - representam uma intenção nobre combinada com uma ignorância essencial do que é língua e como ela funciona. (Laird, 1957, p. 236).

O Esperanto cumpre todos os critérios linguisticamente aceitos para definir uma língua (Martinet, 1967, p. 20). Quando um autor, sem pesquisar e sem basear sua opinião em argumentos concretos, parte do princípio de que isso é falso, não seria ele exatamente o ignorante que ele facilmente vê nos outros? [Sobre "Como a língua funciona", veja o artigo do linguista italiano Alessandro Bausani (1961) "L'esperanto, una lingua che funziona"].

Frequentemente são atribuídas ao Esperanto características que o tornam algum tipo de mutação monstruosa. É desta forma que um professor de línguas americano descreve uma língua assim:

A língua, como o amor e a alma, é algo que é humano e vivo, conquanto difícil seja definir: é um produto natural do espírito de uma raça inteira, e não de um único indivíduo... Línguas artificiais são repulsivas e grotescas, como pessoas com um braço ou perna de metal, ou com um marca-passo costurado ao coração. O Dr. Zamenhof, como o Dr. Frankenstein, criou um monstro feito de pedaços e partes que tinham vida, e, como Mary Shelley tentou nos dizer, nada de bom pode resultar disso. (Arbaiza, 1975, p. 183).

Ou, sem justificativa, dizem que o Esperanto é:

orientado para a supressão gradual das tradições. (Accontini, 1984, p. 5).

Tais julgamentos são ativados por medos irracionais e imaginários que são projetados na língua: em vez de ser estudado como uma realidade linguística, literária, social ou psicológica, o Esperanto é tratado como um tipo de figura quimérica motivada por intenções maliciosas, sem nenhuma percepção do quão delirante, no sentido psiquiátrico do termo, tal atitude é.

c) Racionalização.
Pontos de vista irracionais são justificados por meio de vários argumentos convincentes. Em outras palavras, como no clássico discurso paranoico, os argumentos intelectuais são estritamente lógicos. Somente a falta de uma base na realidade denuncia sua fantasia fundamental.

Por exemplo, atribui-se ao Esperanto o caráter de uma língua indo-europeia analítica flexionada, o que é explicado pelo fato de Zamenhof, assim dizem, só saber línguas indo-europeias. Mas nenhuma dessas afirmações procede. Na realidade:

- Um espaço importante entre as características do Esperanto é ocupado por seu substrato multicultural, no qual as contribuições asiática e húngara têm desempenhado um papel importante (a atividade literária na língua Esperanto entre as duas guerras mundiais desenvolveu-se em grande parte em um cenário húngaro, na chamada escola de Budapeste; o húngaro não é indo-europeu).

- Zamenhof conhecia bem uma língua não indo-europeia: Hebraico, e sua criação carrega a marca disso; por exemplo, o campo semântico do morfema ig tem um equivalente exato, entre as línguas que conhecia, somente no hebraico hif'il (Piron, 1984, p. 26).

- O Esperanto funciona por aglutinação, não por flexão. Assim podem facilmente ser feitas declarações tanto sintéticas como analíticas - é tão aceitável dizer mi biciklos urben como mi iros al la urbo per biciklo [irei à cidade de bicicleta];  pesquisas textuais mostram que as formas sintéticas são muito frequentes - e se é verdade que na fonética e no léxico o Esperanto é indo-europeu, seguramente não o é em sua estrutura: nenhuma língua indo-europeia consiste em morfemas estritamente inalteráveis, tal qual o Esperanto.

d) Isolamento.
O isolamento é o nome dado ao ato de separar algo do seu contexto e fazer julgamentos  desconexos sobre o assunto. Quando um autor diz, sobre línguas:

Acontece também que as línguas nascem, mas nunca a partir do nada: o Esperanto é um fiasco (Malherbe, 1983, p. 368).

esse autor está isolando a língua internacional de seu contexto, tanto histórico como linguístico. Na verdade, o lugar do Esperanto é em uma longa cadeia de experiências e reflexões ao longo de vários séculos. No trabalho de Zamenhof, sua gênese foi gradual, que em muitos aspectos assemelha-se à evolução de uma língua, assim como a gênese de um embrião que evoca a da espécie; esse desenvolvimento gradual é digno de estudo (Waringhien, 1959, pp. 19-49). Por outro lado, os morfemas que o compõem têm suas raízes em outras línguas, não são elementos "criados do nada".

O Esperanto não nasceu do nada, como também não nasceu do nada o Crioulo do Haiti. A linguagem aparece em resposta a uma necessidade. Entre os escravos de várias raças no Caribe cujas línguas eram mutuamente incompreensíveis, houve a necessidade de se comunicar uns com os outros; dessa necessidade nasceu uma linguagem original cheia de cor baseada em grande parte na língua de seus senhores brancos, mas com uma estrutura muito diferente. Da mesma forma, entre 1880 e 1910 uma parte da população do mundo estava ansiosa para fazer contatos com o exterior e estava sedenta por um alargamento de horizontes culturais, mas a aprendizagem de línguas parecia impossível naquelas circunstâncias. Essas pessoas abraçaram o projeto de Zamenhof, e ao usá-lo transformaram-no em uma língua viva. Nem o Crioulo nem Esperanto nasceram do nada; nasceram da mesma força sócio-psicológica: o desejo de dialogar.

Agora consideremos o seguinte texto:

Pegue um pássaro, um dos cisnes do nosso lago por exemplo, despene-o completamente, arranque-lhe os olhos, substitua seu bico chato por um de gavião ou águia, nos tocos de suas pernas faça um enxerto com os pés de uma cegonha, enfie globos oculares de uma coruja na órbita dos olhos (...); agora escreva em suas bandeiras, propague e grite as seguintes palavras: "Eis o pássaro universal", e você vai ter uma pequena ideia do sentimento frio criado em nós por essa carnificina terrível, essa vivissecção mais nauseante, cada vez mais empurrada a nós sob o nome de Esperanto ou língua universal. (Cingria, pp. 1-2).

Deixando de lado o aspecto pitoresco (e ornitológico) dessa citação e as palavras que revelam a extensão da reação emocional ("terrível carnificina", "vivissecção mais nauseante"), restam apenas duas críticas:

a) o Esperanto resulta da intervenção humana em algo vivo;
b) é uma língua heterogênea.

A conclusão do referido autor é racional somente em três condições:

· se a língua fosse um ser vivo, como um animal;

· se a intervenção humana em algo vivo fosse sempre prejudicial;

· se uma língua heterogênea não servisse para a comunicação.

Hipnotizado por seus devaneios, o autor isola sua visão de tais considerações. Ele não consegue perceber que comparar uma língua a uma entidade viva não é mais do que uma metáfora que não deve ser levada muito longe. O pássaro que ele menciona teria sofrido terrivelmente, mas quando a ortografia holandesa passou por uma reforma na década de 40, a língua não gritou nem precisou de anestesia.

Em segundo lugar, o homem frequentemente intervém em coisas vivas com excelentes resultados. A fome poderia ser muito mais dramática da Índia se novos tipos de grãos não tivessem sido produzidos com sucesso graças à intervenção inteiramente consciente do homem na natureza. E nem os cães, nem rosas, nem pão existiriam se o homem não tivesse intencionalmente aplicado seus talentos nas coisas vivas.

Em terceiro lugar, se a heterogeneidade fosse condenável, o Inglês não poderia funcionar de forma satisfatória. Análises linguísticas mostram que na verdade é um idioma mais heterogêneo do que o Esperanto:

Quando examinamos uma língua como o Inglês, percebemos que estamos lidando com várias línguas enroladas em uma. (Lord, 1974, p. 73).

O Esperanto é mais homogêneo porque as leis que regem os elementos absorvidos de fora são mais rigorosas. O que define a heterogeneidade de algo mesclado não é a diversidade de origem dos ingredientes, mas alguma falta de harmonia junto com a falta de um núcleo de assimilação (qualquer um que tentou preparar maionese sabe disso).

3. Ansiedade subjacente

A função dos mecanismos de defesa é proteger o ego da ansiedade. Sua manifestação, sempre que o Esperanto é mencionado, significa que no fundo da psique a língua é sentida como ameaçadora.

a) Medo de mudança no status quo.
Em alguns aspectos, a resistência psicológica contra o Esperanto pode ser comparada com a oposição encontrada pelas ideias de Cristóvão Colombo e Galileu: um mundo estável e bem ordenado viu-se virado de cabeça para baixo pelas novas teorias, o que privou a humanidade de sua fundação milenarmente estabelecida. Da mesma forma, o Esperanto é visto como irritante em um mundo onde cada povo tem sua própria língua, e onde essa ferramenta é passada em massa de seus ancestrais e nenhum indivíduo tem o direito de violá-la. Isso demonstra que uma língua não é necessariamente uma dádiva de séculos passados, mas pode resultar de simples convenção. Tomando como seu critério de correção a não conformidade com a autoridade, mas a eficácia da comunicação, a língua muda a maneira de se inter-relacionar: onde antes havia um eixo vertical, substitui-se por um eixo horizontal. Assim, são esclarecidas questões muito profundas sobre as quais costumeiramente não havia esclarecimento. Por exemplo, o que acontece com a hierarquia linguística por causa disso? Gaélico [irlandês], Holandês, Francês e Inglês não são vistos como iguais na mente das pessoas ou em muitos textos oficiais. Se pessoas de diferentes línguas usarem o Esperanto para se comunicar, essa hierarquia perderá seu fundamento.

b) A língua como um valor sagrado e um sinal de identidade.
A língua não é apenas um fenômeno social externo. É tecida em nossa personalidade. "Eu absorvi o Catalão com o leite da minha mãe", disse uma pessoa questionada no curso da investigação sobre a qual esta análise se baseia.

Nossos conceitos carregam uma carga emocional que a linguística ignora, mas que é vital para a nossa conduta. O núcleo sentimental do conceito de "linguagem" está situado no relacionamento com a mãe, e presumivelmente é por isso que muitas línguas étnicas falam da língua da família como a língua "materna". Entre o bebê que só pode manifestar o seu sofrimento pelo choro, e muitas vezes recebe uma resposta inadequada ou inútil, e uma criança de três anos que usa palavras para explicar o que aconteceu, houve uma enorme mudança, o que a criança sente como algo miraculoso.

Nós éramos muito jovens quando aprendemos a falar para estar cientes de que era apenas um processo cotidiano de aprendizagem que estava ocorrendo. Pareceu-nos uma espécie de dom mágico, um brinquedo divino. Previamente não podíamos explicar nada, e de repente, não sabemos por quê, nos encontramos na posse de um talismã que faz todos os tipos de milagres e enriquece sem precedentes a coisa sem a qual a vida seria impossível: as relações interpessoais.

A necessidade de se sentir compreendido é um dos requisitos básicos de uma criança. Bem, sem a linguagem, o que restaria? A atitude dos pais, seguida pela longa influência da escola, que apresenta a língua como uma norma incontestável e como a chave para todos os tesouros literários, só reforça esse núcleo sentimental. Afirmar, nesse contexto, que uma língua "fabricada" por alguém visto como um contemporâneo - o Esperanto é geralmente confundido com o projeto de Zamenhof - pode funcionar como uma língua materna é um insulto, é roubar o status de talismã mágico que se mantém sempre no fundo da psique, mesmo se em um nível consciente analisamos a questão de forma mais racional. É um sacrilégio inadmissível. Talvez seja para evitar tal profanação que alguns falantes de Esperanto, por uma transferência psicológica bastante compreensível, dizem que o trabalho de Zamenhof é por si mesmo inexplicável e deve ser atribuído à inspiração de uma esfera espiritual superior, sobre-humana.

Na verdade, quando as reações psicológicas evocadas pela palavra "Esperanto" são examinadas, podemos apenas ficar surpreendidos com o número de pessoas que não suportam a ideia de que esta língua poderia ser, em alguns aspectos, melhor do que sua língua nativa. Essa reação vem de uma tendência em igualar uma língua com a pessoa: a minha língua é o meu povo, a minha língua sou eu; se a minha língua é inferior, meu povo é inferior, e eu sou inferior. Ao declarar o Esperanto a priori sem valor, e pronunciar tal julgamento como auto-evidente, a pessoa está a salvo. Esse artifício é profundamente humano e perfeitamente compreensível, mas não aceitável do ponto de vista científico.

c) Diversos medos.
Quando as reações ao Esperanto são examinadas por meio do discurso clínico, todos os tipos de medos subjacentes são revelados, o que não pode ser discutido em detalhe.  Citarei apenas sete:

I. Medo de risco.

Porque nenhum organismo oficial, nenhuma instituição de prestígio reconheceu o valor do Esperanto, apoia-lo é adotar uma postura que se distanciou daquela que parece ser oficial. É menos arriscado repetir o que todos dizem, o que parece estar em consonância com a atitude das pessoas em posição de autoridade e da elite intelectual.

II. Medo do contato direto.

Há algo de tranquilizador no fato de se comunicar por meio de tradução ou de uma língua muito mal compreendida para permitir um intercâmbio direto de ideias em detalhes e com sutileza. Enfrentar atitudes radicalmente diferentes da nossa, em perfeitas condições de comunicação e sem entraves, pode ser uma experiência chocante e perigosamente confusa. Esse medo é justificado, porque o Esperanto existe em nosso meio a um nível mais próximo da expressão espontânea do que outras línguas. Um jovem japonês, que viajou pelo mundo encontrando em cada etapa esperantistas locais, nos diz como ele ficou chocado por esses diálogos diretos com as pessoas que, só porque estavam sendo elas mesmas, e expressavam isso, alteraram toda a perspectiva do conceito de mundo (Deguti, 1973).

III. Medo de regressão infantil.

"Simples" é confundido com "excessivamente simples" ou "infantil", que dá origem à noção de que o Esperanto não pode ser usado para expressar pensamentos realmente adultos no mais alto nível de abstração. Assim, o fator de "simplicidade" é isolado de seu complemento - que modifica totalmente a situação - ou seja, possibilidades ilimitadas de combinação. Por exemplo, a terminação -a, que marca um adjetivo em Esperanto, é muito mais simples do que os muitos sufixos franceses que cumprem o mesmo papel, mas muitas vezes o Esperanto faz a expressão exata possível, visto que muitos nomes franceses não têm uma forma adjetiva, por exemplo, insécurité (Português inseguro, Esperanto nesekura), fait (Português factual, Esperanto fakta), Etats-Unis (Espanhol estadounidense, Português estadunidense, Esperanto usona, que o Esperanto diferencia amerika e nordamerika), ou pays (além de nacia, "da nação", o Esperanto possui landa, "do país"), e assim por diante.

IV. Medo de transparência.

Imagina-se que o Esperanto dotaria o pensamento com uma nitidez insuportável:

O elemento afetivo, tão importante na linguagem, dificilmente encontraria seu lugar nessa língua onde tudo é explícito, essa língua “mais precisa que o pensamento”. (Burney, 1966, p. 94).

É de fato tão possível ser impreciso em Esperanto como em qualquer outra língua, mesmo que seja frequentemente mais fácil falar com clareza na língua de Zamenhof.

V. Medo de desvalorização em relação à facilidade.

Uma solução mais complicada para um problema parece valer mais do que uma simples solução. Escolher a solução difícil preenche algum tipo de desejo de dominação, o que proporciona uma sensação de segurança e conforto da nossa própria importância.

VI. Medo de heterogeneidade.

Esta é uma forma especial da condição conhecida tradicionalmente como "ansiedade de fragmentação”. Porque é fácil para o ser humano se identificar com uma língua, o Esperanto favorece a projeção sobre si das emoções relacionadas com a plenitude da personalidade. Isso é sentido em um nível inconsciente como sendo uma estrutura frágil composta de elementos auto-contraditórios separados, continuamente em perigo de se desintegrar. Como um símbolo de algo insuficientemente forte, porque construído de elementos muito díspares, o Esperanto é assustador.

VII. Medo de níveis inferiores e destruição.

O Esperanto é percebido como um rolo compressor cuja passagem esmaga tudo à morte, aplainando todas as diferenças culturais. Assim projetam-se sobre a língua de Zamenhof elementos psíquicos que pertencem ao que Freud chamou de instinto de morte (Freud, 1920), ou ao núcleo afetivo inconsciente que Charles Baudouin chamou de “automaton”. (Baudouin, 1950, pp. 225-229).

 

4.Conclusão: a função da resistência psicológica

A razão para as reações emocionais observadas no início deste estudo está agora se tornando mais clara: o indivíduo em questão tem medo. Ele está aterrorizado com a ideia de que se destrua ou danifique o tesouro sagrado que brilha com uma beleza mágica nas profundezas do seu psiquismo, a qual nada é permitido ultrapassar: a língua-mãe, símbolo da sua identidade. Como um pássaro em uma sala, que, tomado pelo pânico, não para de se bater contra o vidro da janela e não vê a porta aberta ao lado, ele não tem a serenidade necessária para olhar com calma aquilo que, afinal, é o Esperanto, que parece perverter a própria noção de uma língua. Ele está preso em um círculo vicioso: para deixar de ser assustado, teria que olhar para a realidade de frente, mas para isso é preciso não ter medo.

Este tipo de reação, ilógica mas típica da psicologia humana, não acontece sem a intervenção de fatores políticos e sociais que os meios de comunicação de massa aumentam e divulgam, mas que não podem ser analisados aqui (já falei sobre isso em outro artigo, vd Piron , 1986, pp. 22-28 e 34-36). Eles sugerem uma influência subliminar comparável com as de publicidade e propaganda política, com base na desinformação involuntária que se reproduz automaticamente por um século agora. Não há outra maneira de explicar porque é que as crianças e adolescentes quase nunca mostram a reação negativa a priori facilmente encontrada em adultos, embora todos os elementos psicológicos desencadeadores de mecanismos de defesa destes últimos estejam presentes naqueles também.

Manipulado por seus medos inconscientes, o homem do século XX não vê que antes de julgar o Esperanto é necessário tomar conhecimento de uma série de fatos. Isso pode ser lamentável. Mas de um ponto de vista histórico, pode-se observar que essas reações têm tido um efeito positivo. A aceitação imediata geral do embrião da língua elaborada por Zamenhof teria a submetido a pressões às quais não teria sobrevivido. Nessa fase, ela era muito delicada, muito incompleta. Precisava de uma longa vida em um ambiente limitado mas multicultural para os ajustes necessários serem efetuados, para as áreas semânticas serem definidas, para os pontos fracos serem corrigidos, naturalmente, por meio de uso.

Por outro lado, as relações linguísticas são sempre relações dos fortes sobre os fracos. A ideia de substitui-las por relações igualitárias, que ofereçam às línguas menores e mais fracas o mesmo status da língua dos gigantes econômicos e culturais, tem sido muito chocante para que a humanidade seja capaz de se ajustar de forma incólume e rápida a ela. Transformações nos padrões gerais de pensamento exigem assimilação gradual.

De um século de desafios, de ataques políticos e intelectuais, o Esperanto tem emergido notavelmente forte, flexível e refinado. É caracterizado por uma personalidade fortemente marcada, tão vigoroso como o Francês dos tempos de Rabelais. Esse fato ainda é negado pela maioria das pessoas, mas sempre a priori. Se um escritor se baseia no exame de documentos ou observação do Esperanto no uso prático, ele reconhece sua enorme vitalidade. Embora a resistência social e psicológica tem sido forte por um longo tempo, hoje em dia parece estar cada vez mais sem fôlego e perdendo sua superioridade triunfante. A razão disso não seria porque simplesmente deixou de cumprir sua função?

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Texto original em Esperanto e referências:

http://claudepiron.free.fr/articlesenesperanto/reagoj.htm

2 comentários:

  1. Parabéns, Eddy! Ótima tradução!

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  2. Ótima tradução, ótimo texto!

    Muito bom e gostoso de ler
    Obrigado por trazer esse texto

    Abraço

    Dan

    ResponderExcluir

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