segunda-feira, 26 de abril de 2010

O Esperanto e o Imperialismo Lingüístico

Por Edvaldo Sachett da Silva
Licenciado em Letras pela Uniplac

As ruas estavam tomadas pelo medo. O exército e a polícia fiscalizavam as zonas de colonização estrangeira – estava proibida qualquer forma de uso das línguas dos imigrantes: censura a rádios, jornais, revistas, livros... Não se podiam falar línguas estrangeiras nem mesmo em público. Era proibido às escolas ensinar a linguagem dos imigrantes, as que insistiam eram fechadas. Somente a língua portuguesa podia ser falada. No sul do Brasil, por exemplo, havia muitas pessoas falando alemão e italiano – o governo temia perder seu território com a criação de estados estrangeiros. Essa foi a campanha de nacionalização do governo de Getúlio Vargas. De uma geração para outra, os descendentes dos imigrantes no Brasil perderam toda sua herança lingüística e a maior parte da sua identidade cultural.

“Os descendentes dos imigrantes no Brasil perderam toda sua herança lingüística e a maior parte da sua identidade cultural.”

Vamos viajar um pouco mais para o passado: para o período colonial do Brasil. Naquela época, o tupi, ou língua geral, era o idioma mais falado e utilizado como língua franca. Além dos indígenas, outras pessoas que vinham para o Brasil, europeus e africanos, aprendiam a falar tupi. Havia mais falantes de tupi do que falantes de português no território brasileiro. Os governantes portugueses perceberam que, por meio da língua, estava-se criando por aqui uma cultura de características próprias. A emancipação de uma cultura autêntica e independente da metrópole desafiava a autoridade dos dominadores. Por isso, no século XVIII, Portugal proibiu o uso da língua geral, e somente o português podia ser falado na sua colônia americana. Assim, a língua tupi foi morta.

“Portugal proibiu o uso da língua geral, e somente o português podia ser falado na sua colônia americana. Assim, a língua tupi foi morta.”

No mundo antigo, quando o império romano dominou outros territórios, uma das primeiras coisas que impunham era sua língua. Os soldados romanos ensinavam latim para as pessoas das novas terras que conquistavam. Assim como os portugueses, os romanos já haviam percebido que seria mais fácil dominar outros povos sufocando sua identidade cultural por meio da imposição lingüística. Isso explica em parte por que o império romano foi tão forte. Fato semelhante ocorre hoje com a difusão da língua inglesa.

Você já deve ter se perguntado: por que o inglês é a língua mais difundida no mundo? David Crystal, autor de Cambridge Encyclopedia of the English Language, responde: “Uma língua não se torna global graças às suas propriedades estruturais intrínsecas, ou em função do tamanho de seu vocabulário, ou porque foi o veículo de uma rica literatura no passado, ou então porque esteve associada a uma grande cultura ou religião. (...) Tradicionalmente, uma língua se torna internacional por uma única razão principal: o poder de seu povo. Principalmente o poder político e militar.”

“Uma língua se torna internacional por uma única razão principal: o poder de seu povo. Principalmente o poder político e militar.”

Quando os Estados Unidos e a Grã-Bretanha colonizaram a África, Ásia e Oceania, impunha-se aos nativos das terras dominadas uma educação aos moldes ocidentais. O inglês era a única língua de instrução. A língua dos nativos era proibida. “Aqueles que eram pegos falando sua língua nativa eram submetidos a castigos corporais e eram apontados como tendo feito algo vergonhoso”. Os filhos dos povos dominados são ensinados a falar a língua estrangeira: “ensinam-se conceitos que são estrangeiros, ensinam-se valores que são estrangeiros, ensinam-se estilos de vida que são estrangeiros, e são ensinadas por modelos humanos que são estrangeiros. A intenção por trás desse tipo de educação é moldar as crianças Navajo (através do pensamento, ação e discurso) a agir de acordo com a cultura Anglo-Saxônica dominante. A suposição mais provável é que aparentemente pessoas de outros grupos étnicos não podem ser humanas a não ser se falem inglês, e comportem-se de acordo com os valores de uma sociedade capitalista.”(Robert Phillpson)

“Aqueles que eram pegos falando sua língua nativa eram submetidos a castigos corporais e eram apontados como tendo feito algo vergonhoso.”

No processo de difusão da língua inglesa pelo mundo, um militar britânico, Albert Henry George, escreveu: “Provavelmente todos concordarão que um inglês estaria certo em considerar sua forma de ver o mundo e sua vida melhores do que a dos maoris [povos nativos da Oceania] ou os hotentotes [africanos], e ninguém irá impedir que a Inglaterra faça seu melhor para impor sua superior e mais alta visão sobre esses selvagens. Pode haver alguma dúvida de que o homem branco deve, e irá, impor sua civilização superior nas outras raças?”

Língua e poder estão freqüentemente associados. “A língua dominante é – ou tende a ser – sempre a língua daqueles que detêm o poder econômico, social e político.” (José Hildebrando Dacanal) A língua dominante sempre é a língua das classes dominantes. Portanto, nem sempre é preciso derramar sangue no trabalho sujo de dominação – a imposição cultural faz menos sujeira e dá bons resultados. É o que confessa o Diretor-Geral do British Council em 1988: “Antigamente mandávamos armas e diplomatas para o exterior; hoje enviamos professores de inglês.”

“A língua dominante sempre é
a língua das classes dominantes.”

Ao longo da história, a difusão de línguas imperialistas no mundo coincide com a morte de outras línguas e culturas, porque se dá na maioria das vezes por imposição e repressão. Quando um idioma é reprimido e morto, muito se perde. A língua é o repositório da história de um povo. É sua identidade, seu testemunho oral, suas canções e rituais, seus provérbios e lendas. Uma vez perdida, uma língua dificilmente poderá ser ressuscitada, perde-se a intuição lingüística e a identidade que só existem dentro de cada falante nativo. Portanto, a repressão de uma língua coincide inevitavelmente com a repressão cultural, com a hegemonia de um povo sobre outro, com o aniquilamento de identidades culturais, com a humilhação dos indivíduos portadores dessa cultura e a conseqüente usurpação de seus diretos e seu modo de ser.

“Ao longo da história, a difusão de línguas imperialistas no mundo coincide com a morte de outras línguas e culturas.”

É justo nesse contexto que nasceu o Esperanto. O criador da língua, Lázaro Luiz Zamenhof, sabia bem das conseqüências do imperialismo lingüístico. Ele vivia em Bialistoque, atual Polônia, outrora dominada pelo império russo. Lá viviam basicamente judeus, russos, alemães, ucranianos e poloneses. Esses grupos tratavam-se como inimigos: brigas, mortes, massacres e perseguições eram freqüentes. O russo era imposto como língua oficial, mesmo que apenas 8% da população fosse russa. Aqueles que quisessem reivindicar seus direitos, só poderiam fazê-lo no idioma do império. Ou seja, as pessoas simplesmente não se entendiam, e o russo jamais poderia cumprir um papel de língua franca e uma ponte de compreensão, já que seu uso comum significa também a humilhação dos outros povos.

Zamenhof criou o Esperanto justamente com o objetivo de quebrar esse padrão histórico: uma língua que não representasse o poderio de uma nação sobre outras, uma língua neutra, que desse o mesmo direito de voz a todos os povos e que pregasse solidariedade e democracia, respeito à diversidade, emancipação humana, uma cultura global e a paz; uma língua que representasse uma aliança entre os povos. Trata-se de uma idéia por demais subversiva àqueles que detém o poder. Por isso, o Esperanto é considerado uma língua perigosa. “Ele ataca pacificamente o germe de toda a supremacia de um povo, de uma nação, de uma raça, sobre outras. Ele condena, por princípio filosófico, o esmagamento de um povo por outro, ao proclamar como princípio de direito internacional o estado de igualdade para todos os povos e nações. O Esperanto busca assegurar aos povos, indistintamente, o direito de poderem expressar suas necessidades, suas crenças, seus direitos, suas dúvidas, fixar suas obrigações, em uma língua compreendida e falada por todos em igualdade de condições, sem a humilhação de, renunciando à sua identidade étnica, sua nativa forma de expressão, ter que expor suas idéias em uma língua estranha à sua cultura, diante dos donos daquela língua que bem a conhecem e dominam e que percebem sem esforço as fraquezas dos que buscam desesperadamente, por imitação, nela se expressar.” (Luiz Carlos Franco)

Quase todas as ditaduras do século XX perceberam esse potencial libertário do Esperanto. Na época dos regimes ditatoriais, em países como Alemanha, Itália, Espanha, Rússia e Japão, pessoas que difundiam o Esperanto eram perseguidas, exiladas ou mortas. Na Alemanha, por exemplo, porque o Esperanto carrega ideologias contrárias ao nazismo e porque Zamenhof era judeu, Hitler decidiu executar todos os que estivessem ligados à língua, incluindo toda a família de Zamenhof, que foi dizimada.

“Na época dos regimes ditatoriais, pessoas que difundiam o Esperanto eram perseguidas, exiladas ou mortas.”

Apesar das repressões, após a Segunda Guerra, o Esperanto reviveu. Consideremos este fato: uma língua falada por uma única pessoa há mais de cem anos é hoje falada por milhões de pessoas em mais de cem países. Pela primeira vez na história da humanidade uma língua se espalha pelo mundo e obtém milhões de falantes sem que houvesse um poder militar, político ou econômico por trás dela. Isso faz do Esperanto um fenômeno lingüístico fantástico e digno de estudo.

“Uma língua falada por uma única pessoa há mais de cem anos é hoje falada por milhões de pessoas em mais de cem países.”

Assim como o estudo do Esperanto, não podemos deixar de considerar que o estudo da língua inglesa pode sem dúvida constituir-se em um grande enriquecimento cultural para qualquer pessoa. É preciso deixar claro que não se está fazendo aqui uma propaganda contra o belo idioma de Shakespeare, mas sim contra o imperialismo. Portanto, o propósito deste texto não é encorajar as pessoas a pregarem o ódio contra uma língua ou cultura – a ideologia do Esperanto prega justamente o contrário: é respeitar todas as línguas e culturas indistintamente. O propósito deste texto é fazer você parar para pensar, como o criador do Esperanto pensava, que enquanto todos nós, seres humanos, não formos capazes de adotar uma língua neutra, muitas nações continuarão afastadas, incompreensíveis e hostis umas às outras.

A ampla adoção de uma língua padrão mundial, simples e neutra como o Esperanto resultaria em uma das maiores revoluções que a humanidade poderia experimentar. “Mas o Esperanto é uma grande besteira! Uma utopia!” – muitos atacam sarcasticamente. A essas pessoas, devemos responder: as maiores revoluções só começam com os maiores sonhos.

“Mas o Esperanto é uma grande besteira! Uma utopia!” – muitos atacam sarcasticamente. A essas pessoas, devemos responder: as maiores revoluções só começam com os maiores sonhos.”

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